Lucélia Santos sobre remakes: “É muito Hollywood”

Em cartaz no Rio com a peça "Alguém acaba de morrer lá fora", atriz fala de sua visão da vida, da ilusão, da fama e do que considera um excesso de remakes na televisão

Priscila Bessa iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

Dario Zalis
Lucélia Santos: "A morte é o tema da minha vida"


Em cartaz com a peça “Alguém acaba de morrer lá fora”, no teatro Sesi, no centro do Rio de Janeiro, Lucélia Santos , 55 anos, não parece ter mudado nada. Os cabelos castanhos na altura dos ombros, a silhueta mignon e o visual despojado dão um ar quase adolescente à eterna "Escreva Isaura" da clássica novela da Globo, exibida em 1976.

No espetáculo, que fala sobre a banalização das relações humanas e trata a temática da morte sob uma ótica cômica, a atriz divide o palco com a nora, Vitória Frate, e é dirigida pelo filho, Pedro Neschling, do casamento com o maestro John Neschling.

E é com bom humor que a atriz, que conquistou fama internacional após o sucesso de “Escrava Isaura” e desde “Sinhá Moça” (1986) não ocupa nenhum papel de destaque nas novelas da Globo, recebe a equipe do iG no café do teatro.

Sempre com um sorriso nos lábios, não evita nenhuma pergunta. Responde sem rodeios sobre a vida e a morte, os homens, a maternidade, o que pensa do excesso de remakes na TV e até a falta de convites para trabalhar na Globo: “Agora não penso mais sobre isso”. Garante que o sucesso nunca lhe subiu a cabeça e que é gente como a gente. "Eu ando de ônibus."

A Juliana Paes é linda, mas a cor da pele é produzida e o cabelo é excessivamente ajeitado para ser desarrumado. É muito Hollywood"


Dario Zalis
O visual adolescente e o tipo mignon dão a impressão de que o tempo não passa para Lucélia














iG: Como é ser dirigida pelo seu filho, Pedro?

Lucélia Santos : É muito difícil. Para mim foi um belo treinamento esse trabalho porque tive que, muitas vezes, me retirar. Não é fácil. Nas relações familiares mais próximas é onde mora o grande perigo. Seja pai e mãe, marido e mulher, filho... Com quem você tem muita intimidade é com quem geralmente explode. Não sei se é porque aquela pessoa te conhece tão bem que você acha que ela tem a obrigação de segurar a sua explosão. Fazemos isso e é meio inevitável. Com o Pedro não foi fácil e ele é muito forte. Tem uma relação muito dominante comigo.

iG: Como assim?

Lucélia Santos : Como ele é filho único sempre fui muito liberal e o Pedro sempre meio que fez o que quis de mim (risos). Então, por esse ponto de vista, não é muito difícil ele me dirigir. Mas de uma outra forma inverte o eixo da relação porque, hierarquicamente, eu criei esse menino desde que dei à luz. De repente o cara chega e ele que manda em mim?

Como ele é filho único, sempre fui muito liberal. Pedro sempre meio que fez o que quis de mim."

iG: A peça fala sobre a morte de uma maneira cômica. Como você lida com a morte?

Lucélia Santos : A morte é o tema da minha vida há muitos anos. Sou budista tibetana praticante e no budismo a gente pratica e contempla a morte o tempo todo. Mas isso não é uma coisa dramática. Aqui somos de uma cultura em que achamos que somos onipotentes e que a gente pode realmente tudo, que será eternamente jovem, rico, belo, famoso, tudo. E isso tudo é uma grande ilusão. A gente nasce, envelhece e morre.

iG: Você se mostra uma pessoa muito tranquila. O budismo te traz uma espécie de autocontrole?

Lucélia Santos : Quando a coisa vem você precisa conseguir respirar. A tendência do nosso emocional é explodir. O treinamento te leva cada vez mais a não explodir. Meu emocional, como de todo ser humano, às vezes vem muito forte. Sou muito passional. Sou atriz, tenho essa densidade da caixa preta do palco. É como se estivesse conectada num 330.

Dario Zalis
Lucélia Santos no palco do teatro Sesi no Rio: jeito de menina aos 55 anos.


Somos onipotentes, achamos que a gente pode realmente tudo, que será eternamente jovem, rico, belo, famoso, tudo. E isso tudo é uma grande ilusão. A gente nasce, envelhece e morre

iG: Assistiu algum capítulo do remake de “Gabriela”?

Lucélia Santos : Só vi as chamadas. Achei a Juliana Paes um espetáculo. Ela é tão linda. Veria só por causa dela. Mas não vi nada da produção. Acho que fazer tantos remakes pode frustrar a expectativa. Geralmente frustra. Não entendo por que eles fazem tantos remakes, só de obra minha já fizeram vários. Vão fazer outro agora, “Guerra dos Sexos”. Acho que é por falta de história. Hoje em dia são produções milionárias, extraordinárias, tudo muito sofisticado. Perde um pouco aquela coisa mais lúdica.

iG: Houve uma grande expectativa sobre se Juliana Paes conseguiria convencer como Gabriela no papel que foi de Sônia Braga, considerada até pelo próprio autor, Jorge Amado, a personificação da personagem.

Lucélia Santos : Não tem como comparar. São épocas diferentes. A Gabriela da Sônia Braga é tão extraordinária que é histórico. Me lembro da cena da Soninha em cima de um telhado tentando desenrolar uma pipa. Era lindo. Acho que o Jorge Amado também acredita que a Sônia Braga incorporou uma Gabriela que ficou acima da que ele mesmo escreveu. Tinha uma coisa selvagem, tinha uma coisa verdadeira, de uma mulher de pé no chão, suja, sensual, lá daquele nordeste, que hoje em dia a própria tecnologia atrapalha. Não permite algo tão natural. Fica tudo produzido. Isso distancia do imaginário. Me lembro da Sônia linda com aquela roupinha, toda queimada, aquele cabelo, e era verdade. Ela era a Gabriela. Hoje em dia, a Juliana é linda, um deslumbramento, mas a cor da pele é produzida, o cabelo é excessivamente ajeitado para ser desarrumado. É muito Hollywood.

iG: Sônia Braga se queixou no twitter porque a Globo fez uma matéria sobre Gabriela no “Fantástico” e em momento algum a mencionou. Já passou por algo parecido?

Lucélia Santos : Não, porque não sou contratada da Globo há muitos anos. Eles não têm motivo para me promover. Só promovem os seus artistas. A Sônia é contratada da Globo? Não? Então é por isso que eles não a promovem. Imagina se vão colocar azeitona na empada de uma pessoa que eles não exploram? Por que vão me divulgar ao extremo se não trabalho para eles há anos? É claro, é profissional, é compreensível. Se a Sônia estivesse contratada estaria no “Fantástico” de ponta a ponta.

Dario Zalis
Lucélia sobre o filho Pedro Neschling: "Não foi fácil ser dirigida por ele"

iG: Como analisa as emissoras em que já trabalhou? A Record e a Globo?

Lucélia Santos : Eu não quero avaliar nada. A melhor televisão para mim é a TV Globo. Acho que eles são uma referência internacional de qualidade. As outras tentam se aproximar desse padrão de qualidade da Globo.

iG: Qual a importância que Nelson Rodrigues teve na sua vida?

Lucélia Santos : Para mim ele é um divisor de águas porque foi parte da minha vida. O conheci, ele estava bem velho e doente, e ele assistiu as filmagens que fiz de obras dele. Tive um relacionamento pessoal com o Nelson Rodrigues. Ele entrou na minha vida e eu entrei na vida dele. Tivemos uma relação muito forte. Ele reconhecia em mim o vigor típico dos personagens que ele escrevia. Eu era um tipo que existia no imaginário dele. E quando ele me conheceu viu projetado externamente algo que ele via projetado internamente. Teve muito encantamento no nosso encontro. Ele faz falta a esse país que está chafurdado em falta de valores.

Tive com Nelson Rodrigues uma relação muito forte. Teve muito encantamento no nosso encontro. Ele faz falta a esse país que está chafurdado em falta de valores"

iG: Sob qual aspecto?

Lucélia Santos : Há uma falta de compromisso com a cultura e com a inteligência. Isso não aconteceria se tivesse a mente crítica do Nelson aqui, cutucando todo mundo. Faltam pessoas que coloquem os pontos nos “is” e as coisas nos lugares. Dramaturgia é dramaturgia, reality é reality. Hoje qualquer um pode ser qualquer coisa. Celebridade é uma coisa que acontece de uma forma casual, não por causa de valores adquiridos com o seu trabalho. É como se as pessoas precisassem ser confundidas, não ver uma divisão entre a realidade e a ficção.

iG: A Isaura lhe emprestou uma imagem quase de santa, mas depois você deu uma virada na carreira fazendo trabalhos baseados na obra do Nelson e posando nua três vezes para a Playboy. Você queria mostrar que podia fazer coisas diferentes?

Lucélia Santos : Fiz “Escrava Isaura” e “Bonitinha, mas ordinária” depois sim. Porque eu sou atriz. São personagens diferentes e eu não queria ser escrava de uma tendência de imagem. Fazer só aquilo em que as pessoas queriam me ver. As pessoas vivem correndo atrás de uma imagem de si próprias. Eu nunca quis isso. É assim que vejo a minha profissão, mas hoje em dia perdeu-se de vista. As pessoas não querem mais um trabalho, elas querem ser celebridades dentro de uma carreira que está completamente confundida. Não é verdade que qualquer um pode ser ator. É uma profissão que exige preparo, estudo, discernimento, foco. A pessoa pode até fazer, mas não é bom, não é arte.

As pessoas não querem mais um trabalho, elas querem ser celebridade. Não é verdade que qualquer um pode ser ator. É uma profissão que exige preparo, estudo, discernimento, foco”

iG: Você teve fãs, no mínimo, peculiares, como Fidel Castro, por exemplo. O sucesso nunca lhe subiu a cabeça?

Lucélia Santos : Nunca saí da casinha. Tenho um temperamento que é responsável por todos os meus acertos e por todos os meus erros nessa vida. Nunca me subiu à cabeça nada porque sempre tive muito introjetado que tudo é impermanente, ilusório. Então eu lidei com a maior fama mundial, com tudo que vivi, que é imenso, muito bem. Sempre estive totalmente preparada para viver as coisas que vivi. Qualquer outra pessoa teria se achado. Mas não tenho isso em mim. Não é da minha natureza. Sou que nem a Gabriela, sou pé no chão. Ando de ônibus.

iG: E como é quando as pessoas te encontram no ônibus?

Lucélia Santos : Eu não dirijo e adoro andar de ônibus. As pessoas adoram! Às vezes vira um evento. Vou conversando com a pessoa ao lado. Outro dia foi uma senhora que estava dirigindo e ficou numa alegria, que eu fiquei até emocionada porque é muito legal. Mas em qualquer lugar do mundo é assim. As pessoas andam de ônibus e metrô. Ministro de estado anda de metrô e vai na padaria comprar a sua baguete. Só aqui que tem isso que só pobre anda de ônibus. Não entendo isso. As pessoas têm esse discurso de sustentabilidade, mas não deixam seu carro na garagem.

iG: Nunca pensou em se aventurar numa carreira internacional?

Lucélia Santos : Uma época me passou pela cabeça, mas meu inglês era muito fraco. Fiz uns testes nos Estados Unidos para fazer a Scarlet O´hara na televisão. Era a minha cara! Eu podia perfeitamente fazer, mas o meu inglês não dava. Enfim, eu também não fui sofrer por causa disso, entendia os meus limites, mas eu fiz os testes e achei o máximo. Era total para mim o papel. Dificilmente alguém faria melhor do que eu.

Dario Zalis
"Adoro os homens, mas casar tem que ter paciência e não troco nada pela minha liberdade."


iG: Está solteira? Acha que a sua imagem depois de tantos trabalhos afasta um pouco os homens?

Lucélia Santos : Acho que tem um pouco disso, mas também dou uma embarreirada. É meio difícil se aproximar de mim. É a minha natureza. Eu não deixo as pessoas chegarem muito perto. Estou solteira desde meu último casamento. Não sei se quero mais me casar. Acho legal ter namorado, adoro os homens, mas casar tem que ter paciência e não troco nada pela minha liberdade. A menos que seja um acontecimento tipo o Richard Gere aparecer na minha vida todo budista que ele é! (risos) Aí tudo bem, pode ir lá para casa que eu até dou roupa lavada. Mas se não for o Richard Gere... E ele ainda é amigo do Dalai Lama!

iG: Mas não sente falta de estar com alguém?

Lucélia Santos : De casamento do dia a dia não. Namorados eu tenho, mas nada sério. Também porque não acredito mais em relacionamento. No budismo você aprende a entender isso. A única maneira de um relacionamento dar certo é quando você vai totalmente desprovido de expectativa e eu não conheço nenhum ser humano desprovido disso. Tanto que todo relacionamento acaba. Qual relacionamento que dá certo? Nenhum. Depois passa a fase da paixão e começa um inferno. Cobranças. Então estou muito pragmática.

Não sei se quero mais me casar. Acho legal ter namorado, adoro os homens, mas casar tem que ter paciência e não troco nada pela minha liberdade”

iG: Na época do remake de “Escrava Isaura”, na Record, em 2004, houve comentários de que você faria uma participação, mas isso nunca aconteceu. O convite realmente existiu?

Lucélia Santos : Claro que não. E eu nem assisti. Só vi os outdoors e fiquei irritadíssima porque era tudo tão copiado. Era a mesma chita do vestido, a mesma cruz, a mesma peruca, a mesma pose, o Herval (Rossano, diretor) dirigia a cena igual à da primeira versão. Tudo para dar a impressão que era a primeira. Recebi centenas de cartas e e-mails de pessoas achando que era eu, que era a minha novela. Porque era muito chupa-cabra demais para o mesmo gosto. Isso me deu um pouco de nervoso, então nem quis ver para não ficar julgando. As cenas eram copiadas, não era um remake. Aliás, eu não vejo televisão.

iG: Não assiste nada? Por quê?

Lucélia Santos : Só o canal Off de esportes radicais. Curto esportes radicais e vou começar a fazer montanhismo. É o que mais gosto na vida. Subo a Pedra da Gávea toda hora para perder o medo de altura. Não assisto televisão há muitos anos porque a TV é muito envenenada. É muito baixo astral. É uma carga de emissões de negatividade muito forte que eu não tenho preparo. Eu vejo uma coisa ou outra como linguagem, para saber até o que as pessoas estão fazendo. Vejo mesmo cinema.

iG: Não se chateia porque a Globo não te chama mais para fazer novelas?

Lucélia Santos : Agora eu não penso mais sobre isso. Entrei numas porque desde o ano passado os blogs estão dizendo que a direção da Globo mandou me escalar, que os diretores e autores já estavam sabendo, mas era tudo balela. Invenção da mídia. Eu cortei isso da minha vida. Não penso mais sobre esse assunto e não respondo mais a esse respeito. Estou aqui trabalhando todo dia. Quem quiser vem aqui me ver no teatro. Do Oiapoque ao Chuí eu viajo o Brasil inteiro e vou trabalhando. Não penso mais sobre esse assunto porque não quero que nada me tire a minha energia vital. Ainda não nasceu aquele que vai conseguir tirar a minha alegria de viver, me fazer um ser cheio de expectativas que vão gerar frustrações. Eu vou subir a Pedra da Gávea. E volto de lá maravilhosa.

Dario Zalis
Lucélia sobre casamento: "Só se for um acontecimento tipo Richard Gere. Aí tudo bem, dou até roupa lavada. E ele ainda é amigo do Dalai Lama!"

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG